quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Pouco antes de se "aposentar", o cardeal D. Paulo Evaristo Arns relembrou encontros que teve com militares durante a Ditadura.

D.Agnelo Rossi (1913-95)
 Em dezembro de 1968, quando se fechou o Congresso e foi decretado o Ato Institucional nº 5, o atual Arcebispo Emérito de São Paulo, cardeal D. Paulo Evaristo Arns ainda era bispo-auxiliar. Cuidava principalmente dos assuntos da área de comunicação da Arquidiocese. Sua situação começou a mudar quando, no final de 1969, o então arcebispo D. Agnello Rossi chamou-o e pediu que acompanhasse a situação de um grupo de frades dominicanos, presos sob a acusação de envolvimento com a guerrilha urbana. A partir dali, D. Paulo passou a interessar-se mais pela causa que o tornaria mundialmente famoso: a defesa dos direitos humanos.
Quartel da Policia Militar, Tiradentes, SP
No Tiradentes, hoje Quartel da Policia Militar do Estado de São Paulo, conheceu a realidade dos porões do regime militar, a devastação causada pela tortura nos prisioneiros. Logo passou a cuidar de outras pessoas, além dos dominicanos.
Com o decorrer do tempo, transformou a Cúria Paulistana numa espécie de guarda-chuva ao qual recorriam quase todos os perseguidos do regime. Até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi bater em sua porta. Isso levou o cardeal a ter constantes contatos com os militares, a quem pedia noticias de pessoas desaparecidas e também pelas suas vidas. Nem sempre o recebiam bem, Certa vez chegou a ficar quase sete horas numa sala de espera de um general. 
Até hoje, D Paulo havia falado pouco sobre isso. Em setembro de 1996, porém, durante um depoimento ao jornal Estado de S. Paulo, a propósito de seu iminente afastamento da Arquidiocese, por ter completado 75 anos, ele lembrou os contatos com os generais. Conseguiu recordar aspectos positivos da maioria deles. Uma notável exceção foi o presidente Emilio Garrastazu Médici. O cardeal não se esquece do único encontro que tiveram, no qual o general gritou com ele, recusando-se até mesmo a receber um presente enviado de um católico de São Paulo. Também houve casos de generais que se tornaram amigos de D. Paulo, como os generais Dilermando Monteiro e Golbery do Couto e Silva.

“Os Militares diziam que eu era subversivo.”

Como foi o inicio de suas relações com os militares?
Quando assumi já era conhecido, pelo fato de ter visitado várias vezes os presos politicos, a pedido de D Agnello Rossi. Diziam que eu era subversivo. Me contaram que quando fui nomeado arcebispo, o comandante da região militar disse: “Entre tantos que existem por aí, o papa tinha que escolher justamente o subversivo?”.


Gen. José Canavarro Pereira
No ano de sua posse, o Comandante do II Exército era o general Canavarro. Como eram as suas relações com ele?
Conversamos várias vezes, tanto no quartel quanto em minha casa, sobre as relações entre a Igreja e o governo. Um dia veio sozinho à minha casa, falamos durante um bom tempo e no final ele me disse que estava lendo o Evangelho. Depois afirmou que comparado com Cristo, eu nem era assim tão subversivo. Foi substituido pelo general Humberto de Souza Mello, um homem muito mais dificil. Nunca quis me receber pessoalmente e só falei com ele poucas vezes, por telefone.
General Humberto de Souza Mello
Gen.Ednardo D'Ávila Mello (1911-84)
O general Ednardo D’Avila Mello, que veio a seguir tambem era da linha dura. Foi durante o comando dele que morreu o jornalista Vladimir Herzog, Ele falava com o senhor?
O Ednardo era muito educado, Um dia na minha casa ele disse: “O senhor está cumprindo o seu dever de bom samaritano e eu o respeito por causa disso, mas eu sou o general e a minha missão é a guerra, a limpeza do Brasil.” Eu não concordava com isso, é claro, e dizia a ele. Tinhamos idéias diferentes, mas ele me recebia com fidalguia todas as vezes que eu pedia. Imediatamente. Sob seu comando, porém, as pessoas continuavam sendo torturadas e mortas. Desse período lembro de um episódio no qual estava envolvido o ex-presidente Fernando Henrique. Ele me procurou certa noite, dizendo que alguns colegas dele no Cebrap haviam sido presos e estavam sendo torturados. Na madrugada, escrevi uma carta para o Ednardo e mandei entregá-la no quartel. O general foi avisado, e às 7 horas estava na minha porta. Dias depois, os companheiros de Fernando Henrique foram libertados.

Gen.Dilermando Monteiro
 O senhor teve boas relações com o general Dilermando Monteiro, que era favorável à abertura politica?
Nos tornamos amigos. Amicíssimos, Em mais de uma ocasião ele me confidenciou segredos politicos que até hoje não me sinto à vontade para falar. Ele não era católico, mas se dizia espiritualista. Num dos aniversários da Revolução militar de 31 de março, pediu que eu celebrasse uma missa comemorativa, “É um pedido pessoal”, falou. Mas eu não aceitei e expliquei: “Durante o governo dos militares, muita gente foi e continua sendo torturada” Mais tarde ele também me negou um pedido. Foi quando quis ver as salas onde as pessoas eram torturadas.
O prefeito Olavo Setúbal (1923-2008), Gen. Dilermando Gomes Monteiro (1913-94) e o governador Paulo Egydio Martins (1928-   ), no final dos anos 70.
Golbery do Couto e Silva (1911-87)
O que o senhor diz do general Golbery do Couto e Silva, o mentor da distensão?
Acho que foi um personagem importantísimo na história do Brasil. Antes do general Geisel assumir a presidência, e ele se tornar chefe do Gabinete Civil, me procurou. Nos encontramos no Rio, na casa do Cândido Mendes, irmão do arcebispo de Mariana, D. Luciano Mendes de Almeida (1930-2006). Conversamos durante quase cinco horas. Ele me disse que tinha horror à tortura e que o Geisel estava decidido a acabar com aquele estado de coisas. Me garantiu. Mas as coisas não mudaram logo que eles assumiram e eu cheguei a ter duvidas. Uma vez quando aumentava a repressão em São Paulo, juntei um grupo de quase 40 pessoas, incluindo advogados de presos politicos, pessoas que haviam sido torturadas ou presenciado torturas e fomos à Brasilia. Convidamos Golbery para uma reunião na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e ele topou. Durante uma tarde inteira ouviu os depoimentos daquelas pessoas. Ficou comovido e na despedida quando estava saindo de carro, baixou o vidro e me disse “Infelizmente ainda não conseguimos limpar os quartéis.”

Gen.Golbery
Tiveram outros contatos?
Vários, Era um grande conversador, Informadíssimo.

Gen. Ernesto Geisel (1908-1996)
O senhor encontrou-se com o general Geisel?
 Apenas uma vez durante a inauguração do metrô em São Paulo. Não pudemos conversar. O Geisel se incomodou muito por causa do ato Ecumênico que foi realizado na Catedral da Sé em memória do jornalista Vladimir Herzog, morto durante tortura, em 1975. Indiretamente, por intermédio do governador Paulo Egidio ele pediu que eu não fosse. Dois secretários do governador vieram à minha casa e usaram todo tipo de argumento para me convencer. Disseram até que o Herzog era judeu e os católicos não iriam entender. No final ameaçaram, disseram que a Praça da Sé estaria cercada por policiais e que eles iriam atirar a qualquer grito.

Gen.Emílio Garrastazu Médici (1905-85)
O senhor chegou a ser destratado por algum militar?
Sim, pelo general Médici. Quando ele era presidente, os bispos de São Paulo me incumbiram de ir até ele para falar sobre as prisões que estavam ocorrendo no Estado. Alguns bispos não acreditavam que o Médici soubesse. Consegui marcar uma audiência com ele, sob o pretexto de entregar-lhe uma cópia da encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII. Era uma edição artística feita por um católico paulistano, que queria presenteá-lo. Cheguei, nos cumprimentamos, eu entreguei o presente e expliquei que era o primeiro grande documento social da Igreja. Ele afastou com a mâo, dizendo que não queria. Já fiquei constrangido, mas, ainda assim, tinha que dizer a ele o que os bispos de São Paulo haviam me confiado. Mal comecei a falar, ele me interrompeu, num tom autoritário: “Isso não é com o senhor. Cuide de sua sacristia que nós cuidamos do resto. Não arredaremos nem um milímetro em nossas posições.” Ele exaltou-se, ficou arrebatado, começou a gritar. Eu baixei a minha voz, disse que não havia ido lá para provocá-lo, mas informar, pedir. Ele retrucou: “Sobre isso não converso.”

Como acabou o encontro?
Carlos Alberto Alves 
Carvalho Pinto (1910-87)
De maneira rude. Em menos de cinco minutos ele me colocou para fora da sala. Até hoje não consigo imaginar como ele pôde governar um país como o Brasil. Mais tarde, durante um almoço, comentei o episódio com Carvalho Pinto, antigo governador de São Paulo. Ele me falou que Médici era daquele jeito mesmo, “É um homem monossilábico.” afirmou.  Contou de uma viagem oficial que fizera à Europa com o general e na qual não conseguira conversar sequer sobre amenidades com ele. No avião, Médici ficou a maior parte do tempo olhando pela janela.
Roldão O. Arruda (O Estado de S. Paulo, 08/09/1996)

Nota: D. Paulo Evaristo Arns completou 91 anos em 14 de setembro último. Nascido em Forquilhinha (SC) em 1921, é frade franciscano. Sagrado Bispo em 1966, foi nomeado Quinto Arcebispo da Cidade de São Paulo em 22 de outubro de 1970. Recebeu o título de 'Doutor Honoris causa" por seu desempenho pelos direitos humanos, em 1977, nos Estados Unidos, juntamente com o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter. Fundou a Pastoral da Criança em 1985, junto com sua irmã, a pediatra Zilda Arns Neumann (1934-2010). Em setembro de 1996, ao atingir a idade de 75 anos, de acordo com o hábito eclesiástico, apresentou sua renúncia ao Papa, deixando a Arquidiocese da Capital em 15 de abril de 1998, quando se tornou Arcebispo Emérito de São Paulo.

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